Como o Barulho Prejudica o Cérebro das Crianças

Como o Barulho Prejudica o Cérebro das Crianças

Nós vivemos em um mundo de ruído. Quase o tempo todo temos barulho: os carros nas ruas, as máquinas em casa, as telas na intimidade dos quartos e das camas.

Nossas crianças não escapam, e afogam-se constantemente na poluição sonora das cidades, das escolas e de nossas casas. Isso produz uma destruição silenciosa da saúde das crianças e afeta várias de suas capacidades cerebrais.

Os números são claríssimos. Para a Associação Brasileira de Normas Técnicas, uma casa ou uma escola não podem ter ruídos acima de 50 decibéis – o equivalente ao ruído de duas pessoas conversando, ou uma biblioteca em funcionamento. Este número não é aleatório. Acima daí, começamos a sentir stress.

Se o volume sobe mais um pouco, podemos ter liberação de hormônios relativos ao stress no corpo, e passamos logo a apresentar alterações na pressão sanguínea. Se o barulho for duradouro e rotineiro, perdas cognitivas importantes começam a ocorrer, na concentração e na memória, principalmente.

Eu sempre gostei do silêncio. Então, quando visitei uma escola montessoriana bastante ruidosa, anos atrás, fiquei preocupado e decidi medir o volume da sala. Na média, 65 decibéis. Algo entre o barulho de um escritório e o de um liquidificador. Em alguns picos, a sala produzia mais ruído do que um liquidificador (acima de 75 decibéis).

As crianças, é claro, apresentavam todos os sintomas de uma vida interior inquieta: não se concentravam, derrubavam coisas o tempo todo, vez por outra brigavam entre si, falavam muito alto e gritavam. As professoras, em desespero porque eram igualmente afetadas pelo stress decorrente do barulho, também estavam inquietas, ansiosas e adicionavam à poluição sonora a sua própria voz, alta e onipresente.

Eu também fiquei desesperado, e descobri o volume da sala porque usei um decibelímetro no celular. Então, usamos algumas estratégias para diminuir o volume da sala, sem pedir silêncio às crianças: reorganizamos os ambientes para favorecer grupos menores por toda a sala, em vez de grupos grandes em áreas concentradas; criamos núcleos de trabalho fechados, onde as crianças pudessem entrar e se concentrar sem serem incomodadas por colegas, e treinamos, entre os adultos, movimentos mais lentos, uma fala mais baixa e mais essencial, e técnicas de respiração atenta. Na manhã seguinte, a sala parecia outra, mas eu me dei seis meses antes de acreditar.

Seis meses depois, sem nenhuma outra alteração na escola:

  • O desempenho acadêmico das crianças havia aumentado consideravelmente;
  • As crianças apresentavam um humor melhor e mais tranquilidade;
  • Os conflitos haviam diminuído até quase desaparecerem da sala;
  • As professoras, antes cansadas, agora conseguiam observar e criar;
  • E, bom, os materiais não caíam mais o tempo todo.

Esses são os benefícios de pouco ruído, que evidenciam com transparência os malefícios do excesso de barulho.

Crianças que vivem ou estudam em ambientes barulhentos por anos a fio podem apresentar dificuldades no desenvolvimento da fala e da escrita, advindas de um processamento ruim daquilo que se escuta. Além disso, os batimentos cardíacos de crianças em ambientes barulhentos são significativamente mais acelerados.

Nós mal percebemos quanto ruído há à nossa volta, até fazermos silêncio. Em Montessori, fazemos o Jogo do Silêncio, que consiste em parar todos os movimentos voluntários do corpo, ficar imóvel, e fazer silêncio por um período, que varia de alguns segundos a um minuto.

Para adultos, podemos chegar a dois, três, quinze minutos de cada vez. Quando silenciamos, descobrimos quanto ruído existe no mundo à nossa volta, e compreendemos a importância de criar nossas crianças com mais silêncio e tranquilidade.

Não é difícil fazer com que nossas casas sejam mais silenciosas. Nós ainda podemos ouvir música e ver televisão, e ainda podemos falar alto. Mas algumas coisas ajudam:

  • Desligar a televisão quando nãoestamos assistindo, nem ouvindo com atenção, e deixar de lado a televisão como companhia.
  • Ter períodos do dia sem áudios: tv, música ou qualquer tela.
  • Perceber quando nossas crianças estão concentradas, ou tentando ficar, e diminuir o volume de nossas vozes e dos ruídos ambientais.
  • Em locais muito barulhentos, janelas anti-ruído merecem ser consideradas.
  • Mudanças para vizinhanças menos afetadas podem ser consideradas, quando possível.
  • Se o problema for fora de sua casa, há legislação para proteger você. Pesquise qual o volume máximo permitido em sua cidade, e quem pode produzir tanto barulho, mesmo durante o dia. Poluição sonora é poluição. Aja como você agiria se um escapamento soltasse fumaça dentro de sua sala dia e noite.

Promover uma cultura do silêncio é um favor que fazemos às nossas crianças. Isso não quer dizer inibir sua expressão, mas justamente o contrário: inibir a produção excessiva de ruído precisamente para que a expressão daquilo que é importante possa sempre ter espaço para acontecer.

Se nós pudermos reduzir a presença excessiva do ruído na vida de nossos filhos, iniciaremos uma revolução, uma resistência pacífica à cultura do barulho, abrindo espaço para a criação de um novo mundo, onde todos possam ouvir – e não precisem ouvir de tudo, o tempo todo.

Fonte: Lar Montessori por Gabriel Salomão

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Como a concentração se torna um hábito da criança

Como a concentração se torna um hábito da criança

As crianças, neste ponto como os adultos, vivem bem quando mente e corpo funcionam junto. Esse funcionamento está em clímax quando a criança se concentra.

Maria Montessori foi a primeira cientista da história a identificar o que conduz à concentração em crianças – e hoje nós sabemos que processos muito parecidos ocorrem com adultos, também.

A criança nasce com mente e corpo funcionando juntos. Montessori se referia a ambos por vontade e ação, respectivamente. Isso fica claro em um bebê: se ele estende o braço para mexer em um móbile, todo o seu ser está no braço, na mão, e no móbile.

Nem por um instante ele pensa na próxima amamentação. Nem por um instante se preocupa com a qualidade da soneca que vai dar mais tarde. Braço, mão, móbile. Ali estão sua vontade e sua ação – sua mente e seu corpo.

Para que as coisas continuem bem assim, a criança precisa ter a chance de continuar a desenvolver esforços significativos para ela: movimentar-se à vontade, por exemplo, andando, correndo, subindo e descendo, pegando em tudo que lhe interessar e for razoavelmente seguro.

Geralmente, quase universalmente, não é assim, e os adultos impedem as crianças de subir no sofá, tirar as frutas da fruteira, e correr na calçada. Isso separa a vontade (de se movimentar) e a ação (que é ficar parado, sendo uma criança “boazinha”).

É um dos maiores desastres de uma infância sem privações maiores. Mesmo assim, as crianças podem se recuperar, e essa recuperação, magnífica, é o que chamou a atenção de Montessori quando ela descobriu a concentração.

Ao longo dos primeiros seis anos de sua vida, a criança encontrará, e pode ser apresentada, de novo e de novo, a possibilidades de esforços interessantes. Quando encontra um que lhe atrai de verdade, que tem desafios na medida certa, que permite seu movimento, e que lhe agrada, a criança entra em um novo estado de espírito.

Ela esquece de seu entorno, recusa distrações, ignora o tempo e suas necessidades mais imediatas, para perseguir sua nova conquista.

Nesse momento, vontade e ação, mente e corpo, se encontram novamente, se reconhecem, e trabalham juntas de novo. Quanto mais oportunidades a criança tiver de esforços significativos, mais sua mente e seu corpo se acostumarão a trabalhar juntos. Mais e mais a concentração se tornará um hábito.

Em cada fase da infância, a criança precisa de diferentes possibilidades de esforços significativos. Em Montessori, identificamos essas diferentes etapas pelos períodos sensíveis das crianças. Em cada um deles, as crianças tem sensibilidades especiais para esforços distintos. Você pode ler sobre eles no link deste parágrafo.

Mas há uma outra maneira, ainda melhor, de descobrir do que o seu filho, ou a sua filha, precisam: observar. Olhar as crianças com atenção nos mostra o que elas estão tentando fazer. E o que elas estão tentando fazer, em geral, é o que elas precisam fazer. Por exemplo, se o seu filho estiver tentando amarrar os sapatos, há três grandes possibilidades:

  1. Ele pode estar tentando desenvolver coordenação motora fina;
  2. Pode ser que esteja buscando independência para se vestir;
  3. Pode ser que queira mesmo amarrar os sapatos.

É bom ter uma mente muito aberta na hora da observação, e observar mais de uma vez, observar com frequência. Se sua criança encontrar em você um adulto capaz de ajudá-la a se envolver em esforços significativos, a concentração vem “sozinha”, e se torna o melhor hábito da vida dela.

O Lar Montessori desenvolveu um curso sobre convivência pacífica com crianças, em que você aprenderá sobre concentração, esforços significativos, períodos sensíveis, e outros tantos temas importantes para o desenvolvimento do seu filho. Para conhecer e poder participar, clique na figura abaixo:

Fonte: Lar Montessori por Gabriel Salomão

Os primeiros três anos são os mais importantes da vida do seu filho

Os primeiros três anos são os mais importantes da vida do seu filho

O que uma criança faz nos primeiros três anos é mais importante do que tudo o que ela faz depois, pelo resto da vida. Isso não quer dizer que não haja oportunidades para mudar as coisas mais tarde, mas o começo da vida tem efeitos mais profundos e duradouros do que quase qualquer esforço posterior.

A criança nasce com a predisposição para se adaptar a qualquer cenário que encontre. Seu cérebro vem cheio de neurônios, mas com pouquíssimas sinapses. Em bom português: o cérebro está lá, mas flexível o suficiente para formar todas as suas ligações a partir das experiências vividas pela criança.

Desde cores e cheiros até dinâmicas emocionais e percepção de segurança no mundo. O cérebro tem sede de experiências, e a personalidade da criança se forma a partir da matéria prima de tudo aquilo que ela vive, de fascinante e de terrível. As consequências disso duram a vida toda.

 

Se é verdade que o destino de uma vida não é traçado por completo nos primeiros anos, também é verdade que a influência desses anos dura para sempre.

A criança de zero a três anos atravessa enormes desafios e faz conquistas importantes. Para cada uma delas, vamos fazer uma abordagem inicial aqui, e recomendamos que você estude muito mais a fundo:

 

O nascimento

criança deve nascer em paz. Em um ambiente no qual os pais se sintam seguros, e com adultos que compreendam que, para além da segurança básica da vida da criança, é fundamental proteger o seu bem-estar nessa chegada ao mundo.

Luz, temperatura, contato com o corpo da mãe, respeito ao tempo e ao corpo são aspectos que devem estar sempre presentes em nossas considerações de um parto que seja uma cerimônia de boas-vindas.

 

Alimentar-se

Quando chega perto dos seis meses, a criança passa a complementar a amamentação com alimentos sólidos. É importante que a criança possa conhecer alimentos de verdade, não seja nutrida só de industrializados com sabores misturados e artificiais, e que possa conquistar autonomia gradativa em uma relação íntima e saudável com a comida.

Seus tempos, sua fome, seus gostoso devem ser respeitados, mesmo diante da necessidade de se apresentar novidades e de uma alimentação equilibrada e regular.

 

Falar

Quando começa a falar, a criança precisa ser escutada. Precisa que falemos com ela, sim, mas mais que isso, é necessário interagir. Ela fala também, e nós mostramos que entendemos. Nós contamos histórias do dia e da vida, dizemos o que fazemos com ela (no banho) e para ela (na cozinha) e cantamos junto.

Mas quando ela fala palavras, nós nos devemos nos esforçar para entender, traduzir e executar, quando necessários, seus pedidos, para que ela perceba que suas palavras têm efeito no mundo. Conversar e ouvir, além de falar, são atitudes importantes para a construção de uma relação saudável com a comunicação.

 

Caminhar

Caminhar é a primeira independência da criança que a leva para longe de nós. E ela deve poder ir quão longe quanto quiser, e retornar. Nós podemos seguir de vez em quando, mas em geral, nós esperamos, para que essa independência seja genuína.

As crianças precisam caminhar muito, para além das paredes da casa. Caminhadas longas, lentas e cheias de pausas são perfeitas para os de dois anos. Carregar coisas enquanto caminham, subir e descer degraus, escalar e correr são evoluções da caminhada simples, e devem ser respeitadas.

Uma criança precisa de chances para se desenvolver plenamente. Se pudermos entender as necessidades de nossos filhos, e oferecer a eles três primeiros anos brilhantes, a vida tem uma chance muito maior de ser uma enorme aventura, cheia de desafios, mas cheia de amor e felicidade.

Está em nossas mãos garantir, não só para nossos filhos, mas para todas as crianças do mundo, que os anos mais importantes de suas vidas serão considerados com toda a reverência necessária. Assim, daremos a eles a chance de construir, com esforços de que só as crianças são capazes, uma nova humanidade, muito mais feliz.

Fonte: Lar Montessori, por Gabriel Salomão

 

 

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Você ama seu filho. Mas você o entende?

Você ama seu filho. Mas você o entende?

Entender é a essência de amar. Nós achamos que amamos as crianças, mas raramente as compreendemos. Montessori uma vez escreveu:

Não é suficiente que a professora ame as crianças. Antes é necessário que ela ame e compreenda o universo.

Mais do que amar a criança é necessário amar e compreender como as coisas funcionam no mundo. Isso nos levará a compreender como a criança funciona, e essa compreensão abrirá caminho para o amor verdadeiro.

O título de um dos melhores livros de Maria Montessori é O Segredo da Infância. Na tradução para o português, A Criança. Mas o título original é precioso, porque neste livro, Montessori expõe e explica os segredos mais bem guardados da psicologia infantil.

Entre os segredos que Montessori descobre e comunica estão três, que nos parecem os mais importantes para a compreensão amorosa que devemos desenvolver para com nossos filhos:

 

Atividade Espontânea

A criança precisa poder escolher o que fazer. Ela não pode passar a vida seguindo nossas ordens e, ao mesmo tempo, ser feliz. Quando uma criança encontra uma gaveta e começa a abrir e fechar, repetidamente, ela está em uma atividade espontânea. A mesma coisa é verdade quando uma criança abre e fecha a torneira dezenas de vezes seguidas.

Nós nunca devemos interromper a criança em atividades espontâneas. A atividad espontânea é a chave para um desenvolvimento saudável, tanto do ponto de vista motor quanto nos aspectos psicológico e emocional. A criança que age espontaneamente e com liberdade tem uma chance muito maior de ser feliz. O adulto que compreende isso ama a criança melhor.

 

Independência Física

O objetivo mais importante da vida de uma criança de 0 a 6 anos de idade é a conquista da independência física, ou, como propunha Montessori, desenvolver a habilidade de fazer sozinho. A criança busca a independência física desde quando nasce.

O adulto que entende essa criança deixa de cometer três erros graves: interrompe demais (com elogios, sorrisos, chamados), impede demais (“não faça isso”, “aqui não”, “assim não”) e ajuda demais (por uma compaixão errada, sem compreensão das necessidades verdadeiras da criança).

 

Ordem e Previsibilidade

A criança pequena é uma recém-chegada no mundo. Para ela tudo é tão novo quanto seria para você se amanhã você acordasse em uma estação espacial, com gravidade zero e tudo. Por isso, ela precisa que as coisas se repitam e que haja estabilidade na vida. Só assim ela consegue entender o mundo e desenvolver coragem para perseguir seu desenvolvimento independente.

Para a criança é importante viver em um ambiente organizado, com as coisas sempre no mesmo lugar. Também é bom que as tarefas de seu dia a dia sejam feitas em sequências iguais ou muito parecidas diariamente. Finalmente, é fundamental que o adulto seja coerente em seu comportamento e só coloque para a criança os limites que precisam ser colocados – e que, ao mesmo tempo, nunca falhe em colocar esses limites.

 

Uma tarefa nada pequena…

Montessori disse que uma educação capaz de salvar a humanidade não é uma tarefa pequena. E não é mesmo. Atividade, Independência e Ordem podem parecer princípios simples, mas são a semente de um amor revolucionário. Entender a criança nos torna capazes de amá-la muito melhor. Nosso amor se torna muito mais verdadeiro. Compreender é o primeiro passo para amar de verdade, e nossas crianças merecem o amor mais genuíno possível.

 

Fonte: Lar Montessori, por Gabriel Salomão

 

 

 

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Dois Bilhões para Montessori

Dois Bilhões para Montessori

Como seria se todas as crianças pudessem passar por escolas montessorianas? Esta semana, talvez tenhamos dado um passo nessa direção.

Jeff Bezos, fundador da Amazon e ex-aluno de uma escola montessoriana, se comprometeu a dedicar us$2.000.000.000,00 para famílias sem-teto e para a construção de “escolas de alta qualidade inspiradas em Montessori”.

Considerando que metade desse valor vá para Montessori, se fosse exclusivamente para a formação de professores de alta qualidade, seria possível formar 250.000 professores, o suficiente para quase nove milhões de crianças.

Em seu comunicado sobre a notícia, a American Montessori Society disse:

Nós defendemos que esta é uma oportunidade para aumentar a percepção pública de Montessori, especialmente entre um grande leque de tomadores de decisão, incluindo aqueles responsáveis pelas políticas públicas de educação e os repórteres que têm entrado em contato com nosso escritório depois do comunidado do Sr. Bezos, para saberem mais.

A Amazon, empresa fundada por Jeff Bezos, tem sido duramente criticada por práticas abusivas contra seus funcionários. A doação de Jeff Bezos não deve apagar isso. Um outro problema, levantado por várias vozes relevantes em Montessori, é que nenhuma organização montessoriana foi contatada por Bezos, o que nos leva a crer que seja possível que as escolas inspiradas em Montessori não incluam professores com formação de alta qualidade – a parte mais importante da escola.

Vamos torcer para que o contato que as organizações estão fazendo, em grupo, com Bezos, conduza a uma excelente utilização da verba que, se fosse usada meio a meio para formações e compra de materiais, permitiria atender mais de cinco milhões de crianças pequenas.

 

“A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta.” Maria Montessori, em A Criança

Escrito por gabrielmsalomao

Escola Montessori: O que você precisa saber

Escola Montessori: O que você precisa saber

Instituição baseada no método foi a escolha de William e Kate Middleton para o pequeno George, 2 anos

Foi a italiana Maria Montessori quem desenvolveu a metodologia de ensino que leva seu nome, para colocar em prática os preceitos filosóficos nos quais acreditava. Maria se formou em medicina e, ainda jovem, foi trabalhar com crianças que tinham necessidades especiais. A partir dessa experiência, desenvolveu um novo método pedagógico, que foi aplicado primeiro em escolas de educação infantil na Itália e depois se espalhou para o mundo.

 

Quais são os princípios montessorianos

Há três itens básicos que caracterizam a filosofia montessoriana:

  • Educação para a paz:
    o que não significa um pacifismo subserviente, mas ativo, da construção de um cidadão que participe da sociedade e que trabalhe com foco no bem-estar comum. A escola montessoriana não se preocupa apenas em dar conhecimento, mas em como esse conhecimento vai ser utilizado na sociedade.

 

  • Educação é ciência:
    a pedagogia deve se basear em preceitos científicos capazes de respeitar as leis do desenvolvimento da criança e suas fases evolutivas.

 

  • Educação cósmica:
    o respeito à estreita relação entre a natureza e a sociedade humana, mantendo a harmonia da vida. É um princípio relacionado à espiritualidade, mas sem nenhuma conexão religiosa.

 

 

Na prática, como isso funciona?

Existe um ingrediente fundamental na metodologia de ensino montessoriana, que é a  autoeducação.

É a criança quem define seu próprio ritmo de aprendizagem, ou seja, é ela quem diz quando está pronta para o próximo passo. Como? Tendo à sua disposição diversos materiais que vão se tornando cada vez mais complexos à medida que ela demonstra interesse. O ensino das cores é um exemplo disso.

O primeiro material ao qual a criança tem acesso contém apenas as cores primárias: azul, amarelo e vermelho. Depois de ter interagido o suficiente, ela passa para um segundo material, com onze cores.

Quando se sentir preparada, interage com um terceiro material, com mais cores ainda, organizadas de acordo com uma gradação. É assim, passo a passo, que o conhecimento vai se aprofundando.

Nesse processo os materiais disponíveis são de suma importância e muitos deles foram desenvolvidos pela própria Maria Montessori. O mais famoso é o cubo dourado, que materializa o sistema decimal. A ideia é que a criança possa manipular, sentir as diferenças entre unidade, dezena e centena – em termos de tamanho, de peso, de visão, adquirindo uma noção matemática por meio de uma experiência concreta.

 

Outro ingrediente fundamental para a autoeducação é construir um ambiente que propicie a aprendizagem e a vivência. Por isso, na sala de aula, tudo fica ao alcance dos pequenos – mas de forma organizada, é claro. Existe a estante da linguagem, a estante da matemática e os materiais sensoriais.

E em cada espaço desses, tudo fica arrumado de acordo com o grau de dificuldade. Quanto mais ao alto – no máximo na altura da criança – e à esquerda, mais fácil é o material, e quanto mais a direita e mais baixo, mais difícil. Essa sequência de dificuldade acompanha a lógica da própria escrita (que vai da esquerda para a direita), fazendo com que a criança entenda o espaço de uma forma bastante intuitiva.

O que está mais alto, na altura dos olhos da crianças, é o que ela enxerga primeiro. À medida em que progride, ela precisa se abaixar para acessar lições mais complexas.

 

Também por causa da autoeducação, as crianças são divididas em grupos, nos quais convivem com colegas de idades diferentes. Geralmente, as crianças ficam juntas de 1 a 3 anos, de 3 a 6, de 6 a 9 e de 9 a 12 anos e assim por diante.

Isso porque o desenvolvimento não acontece de forma homogênea entre todas as crianças e as necessidades de cada uma variam de acordo com esse processo. Assim, elas podem conviver com outras crianças, com até 3 anos de diferença, que podem estar sintonizadas com as mesmas necessidades dela.

Outro ponto importante é que as escolas montessorianas adotam um currículo multidisciplinar, o que quer dizer que por meio de uma só experiência é possível trabalhar diferentes disciplinas. Ao aprender ritmo, aprende-se música e matemática junto, por exemplo.

 

E qual é o papel do professor?

Como é a própria criança que escolhe em que estação quer estar, o professor é, antes de tudo, um observador, treinado para perceber como a criança interage com o material.

“Em espanhol, no lugar de ‘professor’, as pessoas falam em ‘guia Montessori’, eu gosto muito desse termo”, comenta a diretora pedagógica do colégio Prima (SP), Edimara de Lima . Quando a criança não sai do mesmo material, cabe ao professor observar, para investigar o motivo pelo qual isso acontece: ela tem medo do insucesso, do novo, ela não se arrisca?

É esse tipo de percepção sensível que o educador precisa ter. Quando um dos alunos chega e fica parado e não escolhe nada, também cabe ao professor convidá-lo e ajudá-lo a escolher uma atividade.

“Manter o ambiente organizado, por exemplo, também é função das crianças, mas é, principalmente, uma função do professor. Se a criança sempre encontra o material em um mesmo lugar, ela tem tendência a devolvê-lo lá”, completa Edimara.

 

Será que funciona para o meu filho?

Antes de mais nada, o tipo de escola que a criança vai frequentar deve ser uma escolha da família. Edimara diz que quando perguntam a ela se o método Montessori é bom para qualquer criança, ela responde que sim, mas faz uma ressalva: “A escola tem que ser coerente com os valores e objetivos da família.

Uma criança de uma família mais rígida, pouco flexível, não vai se dar tão bem em uma escola montessoriana”, aconselha. É preciso olhar a escola como algo que vai muito além do projeto cognitivo. É preciso se perguntar que tipo de homens essa escola está formando, qual é a filosofia por trás do ensino.

Para o Montessori, não é importante o primeiro lugar na Fuvest, uma pontuação enorme no Enem… Estamos preocupados em formar gente que saiba escolher, que assuma suas escolhas, que tenha o bem comum sempre como o norte da sua vida.”, afirma Edimara.

Para ela, o que vai contar no futuro para quem passou por uma escola montessoriana é justamente a liberdade de fazer suas próprias escolhas. “A diferença do Montessori não está tanto no nível cognitivo, mas acho que são jovens que sabem sustentar e justificar suas escolhas. Sabem que uma escolha demanda uma responsabilidade e isso vai de uma série de outras posturas”, resume.

Por Naíma Saleh

 

 

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