Como a concentração se torna um hábito da criança

Como a concentração se torna um hábito da criança

As crianças, neste ponto como os adultos, vivem bem quando mente e corpo funcionam junto. Esse funcionamento está em clímax quando a criança se concentra.

Maria Montessori foi a primeira cientista da história a identificar o que conduz à concentração em crianças – e hoje nós sabemos que processos muito parecidos ocorrem com adultos, também.

A criança nasce com mente e corpo funcionando juntos. Montessori se referia a ambos por vontade e ação, respectivamente. Isso fica claro em um bebê: se ele estende o braço para mexer em um móbile, todo o seu ser está no braço, na mão, e no móbile.

Nem por um instante ele pensa na próxima amamentação. Nem por um instante se preocupa com a qualidade da soneca que vai dar mais tarde. Braço, mão, móbile. Ali estão sua vontade e sua ação – sua mente e seu corpo.

Para que as coisas continuem bem assim, a criança precisa ter a chance de continuar a desenvolver esforços significativos para ela: movimentar-se à vontade, por exemplo, andando, correndo, subindo e descendo, pegando em tudo que lhe interessar e for razoavelmente seguro.

Geralmente, quase universalmente, não é assim, e os adultos impedem as crianças de subir no sofá, tirar as frutas da fruteira, e correr na calçada. Isso separa a vontade (de se movimentar) e a ação (que é ficar parado, sendo uma criança “boazinha”).

É um dos maiores desastres de uma infância sem privações maiores. Mesmo assim, as crianças podem se recuperar, e essa recuperação, magnífica, é o que chamou a atenção de Montessori quando ela descobriu a concentração.

Ao longo dos primeiros seis anos de sua vida, a criança encontrará, e pode ser apresentada, de novo e de novo, a possibilidades de esforços interessantes. Quando encontra um que lhe atrai de verdade, que tem desafios na medida certa, que permite seu movimento, e que lhe agrada, a criança entra em um novo estado de espírito.

Ela esquece de seu entorno, recusa distrações, ignora o tempo e suas necessidades mais imediatas, para perseguir sua nova conquista.

Nesse momento, vontade e ação, mente e corpo, se encontram novamente, se reconhecem, e trabalham juntas de novo. Quanto mais oportunidades a criança tiver de esforços significativos, mais sua mente e seu corpo se acostumarão a trabalhar juntos. Mais e mais a concentração se tornará um hábito.

Em cada fase da infância, a criança precisa de diferentes possibilidades de esforços significativos. Em Montessori, identificamos essas diferentes etapas pelos períodos sensíveis das crianças. Em cada um deles, as crianças tem sensibilidades especiais para esforços distintos. Você pode ler sobre eles no link deste parágrafo.

Mas há uma outra maneira, ainda melhor, de descobrir do que o seu filho, ou a sua filha, precisam: observar. Olhar as crianças com atenção nos mostra o que elas estão tentando fazer. E o que elas estão tentando fazer, em geral, é o que elas precisam fazer. Por exemplo, se o seu filho estiver tentando amarrar os sapatos, há três grandes possibilidades:

  1. Ele pode estar tentando desenvolver coordenação motora fina;
  2. Pode ser que esteja buscando independência para se vestir;
  3. Pode ser que queira mesmo amarrar os sapatos.

É bom ter uma mente muito aberta na hora da observação, e observar mais de uma vez, observar com frequência. Se sua criança encontrar em você um adulto capaz de ajudá-la a se envolver em esforços significativos, a concentração vem “sozinha”, e se torna o melhor hábito da vida dela.

O Lar Montessori desenvolveu um curso sobre convivência pacífica com crianças, em que você aprenderá sobre concentração, esforços significativos, períodos sensíveis, e outros tantos temas importantes para o desenvolvimento do seu filho. Para conhecer e poder participar, clique na figura abaixo:

Fonte: Lar Montessori por Gabriel Salomão

Os primeiros três anos são os mais importantes da vida do seu filho

Os primeiros três anos são os mais importantes da vida do seu filho

O que uma criança faz nos primeiros três anos é mais importante do que tudo o que ela faz depois, pelo resto da vida. Isso não quer dizer que não haja oportunidades para mudar as coisas mais tarde, mas o começo da vida tem efeitos mais profundos e duradouros do que quase qualquer esforço posterior.

A criança nasce com a predisposição para se adaptar a qualquer cenário que encontre. Seu cérebro vem cheio de neurônios, mas com pouquíssimas sinapses. Em bom português: o cérebro está lá, mas flexível o suficiente para formar todas as suas ligações a partir das experiências vividas pela criança.

Desde cores e cheiros até dinâmicas emocionais e percepção de segurança no mundo. O cérebro tem sede de experiências, e a personalidade da criança se forma a partir da matéria prima de tudo aquilo que ela vive, de fascinante e de terrível. As consequências disso duram a vida toda.

 

Se é verdade que o destino de uma vida não é traçado por completo nos primeiros anos, também é verdade que a influência desses anos dura para sempre.

A criança de zero a três anos atravessa enormes desafios e faz conquistas importantes. Para cada uma delas, vamos fazer uma abordagem inicial aqui, e recomendamos que você estude muito mais a fundo:

 

O nascimento

criança deve nascer em paz. Em um ambiente no qual os pais se sintam seguros, e com adultos que compreendam que, para além da segurança básica da vida da criança, é fundamental proteger o seu bem-estar nessa chegada ao mundo.

Luz, temperatura, contato com o corpo da mãe, respeito ao tempo e ao corpo são aspectos que devem estar sempre presentes em nossas considerações de um parto que seja uma cerimônia de boas-vindas.

 

Alimentar-se

Quando chega perto dos seis meses, a criança passa a complementar a amamentação com alimentos sólidos. É importante que a criança possa conhecer alimentos de verdade, não seja nutrida só de industrializados com sabores misturados e artificiais, e que possa conquistar autonomia gradativa em uma relação íntima e saudável com a comida.

Seus tempos, sua fome, seus gostoso devem ser respeitados, mesmo diante da necessidade de se apresentar novidades e de uma alimentação equilibrada e regular.

 

Falar

Quando começa a falar, a criança precisa ser escutada. Precisa que falemos com ela, sim, mas mais que isso, é necessário interagir. Ela fala também, e nós mostramos que entendemos. Nós contamos histórias do dia e da vida, dizemos o que fazemos com ela (no banho) e para ela (na cozinha) e cantamos junto.

Mas quando ela fala palavras, nós nos devemos nos esforçar para entender, traduzir e executar, quando necessários, seus pedidos, para que ela perceba que suas palavras têm efeito no mundo. Conversar e ouvir, além de falar, são atitudes importantes para a construção de uma relação saudável com a comunicação.

 

Caminhar

Caminhar é a primeira independência da criança que a leva para longe de nós. E ela deve poder ir quão longe quanto quiser, e retornar. Nós podemos seguir de vez em quando, mas em geral, nós esperamos, para que essa independência seja genuína.

As crianças precisam caminhar muito, para além das paredes da casa. Caminhadas longas, lentas e cheias de pausas são perfeitas para os de dois anos. Carregar coisas enquanto caminham, subir e descer degraus, escalar e correr são evoluções da caminhada simples, e devem ser respeitadas.

Uma criança precisa de chances para se desenvolver plenamente. Se pudermos entender as necessidades de nossos filhos, e oferecer a eles três primeiros anos brilhantes, a vida tem uma chance muito maior de ser uma enorme aventura, cheia de desafios, mas cheia de amor e felicidade.

Está em nossas mãos garantir, não só para nossos filhos, mas para todas as crianças do mundo, que os anos mais importantes de suas vidas serão considerados com toda a reverência necessária. Assim, daremos a eles a chance de construir, com esforços de que só as crianças são capazes, uma nova humanidade, muito mais feliz.

Fonte: Lar Montessori, por Gabriel Salomão

 

 

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Você ama seu filho. Mas você o entende?

Você ama seu filho. Mas você o entende?

Entender é a essência de amar. Nós achamos que amamos as crianças, mas raramente as compreendemos. Montessori uma vez escreveu:

Não é suficiente que a professora ame as crianças. Antes é necessário que ela ame e compreenda o universo.

Mais do que amar a criança é necessário amar e compreender como as coisas funcionam no mundo. Isso nos levará a compreender como a criança funciona, e essa compreensão abrirá caminho para o amor verdadeiro.

O título de um dos melhores livros de Maria Montessori é O Segredo da Infância. Na tradução para o português, A Criança. Mas o título original é precioso, porque neste livro, Montessori expõe e explica os segredos mais bem guardados da psicologia infantil.

Entre os segredos que Montessori descobre e comunica estão três, que nos parecem os mais importantes para a compreensão amorosa que devemos desenvolver para com nossos filhos:

 

Atividade Espontânea

A criança precisa poder escolher o que fazer. Ela não pode passar a vida seguindo nossas ordens e, ao mesmo tempo, ser feliz. Quando uma criança encontra uma gaveta e começa a abrir e fechar, repetidamente, ela está em uma atividade espontânea. A mesma coisa é verdade quando uma criança abre e fecha a torneira dezenas de vezes seguidas.

Nós nunca devemos interromper a criança em atividades espontâneas. A atividad espontânea é a chave para um desenvolvimento saudável, tanto do ponto de vista motor quanto nos aspectos psicológico e emocional. A criança que age espontaneamente e com liberdade tem uma chance muito maior de ser feliz. O adulto que compreende isso ama a criança melhor.

 

Independência Física

O objetivo mais importante da vida de uma criança de 0 a 6 anos de idade é a conquista da independência física, ou, como propunha Montessori, desenvolver a habilidade de fazer sozinho. A criança busca a independência física desde quando nasce.

O adulto que entende essa criança deixa de cometer três erros graves: interrompe demais (com elogios, sorrisos, chamados), impede demais (“não faça isso”, “aqui não”, “assim não”) e ajuda demais (por uma compaixão errada, sem compreensão das necessidades verdadeiras da criança).

 

Ordem e Previsibilidade

A criança pequena é uma recém-chegada no mundo. Para ela tudo é tão novo quanto seria para você se amanhã você acordasse em uma estação espacial, com gravidade zero e tudo. Por isso, ela precisa que as coisas se repitam e que haja estabilidade na vida. Só assim ela consegue entender o mundo e desenvolver coragem para perseguir seu desenvolvimento independente.

Para a criança é importante viver em um ambiente organizado, com as coisas sempre no mesmo lugar. Também é bom que as tarefas de seu dia a dia sejam feitas em sequências iguais ou muito parecidas diariamente. Finalmente, é fundamental que o adulto seja coerente em seu comportamento e só coloque para a criança os limites que precisam ser colocados – e que, ao mesmo tempo, nunca falhe em colocar esses limites.

 

Uma tarefa nada pequena…

Montessori disse que uma educação capaz de salvar a humanidade não é uma tarefa pequena. E não é mesmo. Atividade, Independência e Ordem podem parecer princípios simples, mas são a semente de um amor revolucionário. Entender a criança nos torna capazes de amá-la muito melhor. Nosso amor se torna muito mais verdadeiro. Compreender é o primeiro passo para amar de verdade, e nossas crianças merecem o amor mais genuíno possível.

 

Fonte: Lar Montessori, por Gabriel Salomão

 

 

 

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Dois Bilhões para Montessori

Dois Bilhões para Montessori

Como seria se todas as crianças pudessem passar por escolas montessorianas? Esta semana, talvez tenhamos dado um passo nessa direção.

Jeff Bezos, fundador da Amazon e ex-aluno de uma escola montessoriana, se comprometeu a dedicar us$2.000.000.000,00 para famílias sem-teto e para a construção de “escolas de alta qualidade inspiradas em Montessori”.

Considerando que metade desse valor vá para Montessori, se fosse exclusivamente para a formação de professores de alta qualidade, seria possível formar 250.000 professores, o suficiente para quase nove milhões de crianças.

Em seu comunicado sobre a notícia, a American Montessori Society disse:

Nós defendemos que esta é uma oportunidade para aumentar a percepção pública de Montessori, especialmente entre um grande leque de tomadores de decisão, incluindo aqueles responsáveis pelas políticas públicas de educação e os repórteres que têm entrado em contato com nosso escritório depois do comunidado do Sr. Bezos, para saberem mais.

A Amazon, empresa fundada por Jeff Bezos, tem sido duramente criticada por práticas abusivas contra seus funcionários. A doação de Jeff Bezos não deve apagar isso. Um outro problema, levantado por várias vozes relevantes em Montessori, é que nenhuma organização montessoriana foi contatada por Bezos, o que nos leva a crer que seja possível que as escolas inspiradas em Montessori não incluam professores com formação de alta qualidade – a parte mais importante da escola.

Vamos torcer para que o contato que as organizações estão fazendo, em grupo, com Bezos, conduza a uma excelente utilização da verba que, se fosse usada meio a meio para formações e compra de materiais, permitiria atender mais de cinco milhões de crianças pequenas.

 

“A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta.” Maria Montessori, em A Criança

Escrito por gabrielmsalomao

Escola Montessori: O que você precisa saber

Escola Montessori: O que você precisa saber

Instituição baseada no método foi a escolha de William e Kate Middleton para o pequeno George, 2 anos

Foi a italiana Maria Montessori quem desenvolveu a metodologia de ensino que leva seu nome, para colocar em prática os preceitos filosóficos nos quais acreditava. Maria se formou em medicina e, ainda jovem, foi trabalhar com crianças que tinham necessidades especiais. A partir dessa experiência, desenvolveu um novo método pedagógico, que foi aplicado primeiro em escolas de educação infantil na Itália e depois se espalhou para o mundo.

 

Quais são os princípios montessorianos

Há três itens básicos que caracterizam a filosofia montessoriana:

  • Educação para a paz:
    o que não significa um pacifismo subserviente, mas ativo, da construção de um cidadão que participe da sociedade e que trabalhe com foco no bem-estar comum. A escola montessoriana não se preocupa apenas em dar conhecimento, mas em como esse conhecimento vai ser utilizado na sociedade.

 

  • Educação é ciência:
    a pedagogia deve se basear em preceitos científicos capazes de respeitar as leis do desenvolvimento da criança e suas fases evolutivas.

 

  • Educação cósmica:
    o respeito à estreita relação entre a natureza e a sociedade humana, mantendo a harmonia da vida. É um princípio relacionado à espiritualidade, mas sem nenhuma conexão religiosa.

 

 

Na prática, como isso funciona?

Existe um ingrediente fundamental na metodologia de ensino montessoriana, que é a  autoeducação.

É a criança quem define seu próprio ritmo de aprendizagem, ou seja, é ela quem diz quando está pronta para o próximo passo. Como? Tendo à sua disposição diversos materiais que vão se tornando cada vez mais complexos à medida que ela demonstra interesse. O ensino das cores é um exemplo disso.

O primeiro material ao qual a criança tem acesso contém apenas as cores primárias: azul, amarelo e vermelho. Depois de ter interagido o suficiente, ela passa para um segundo material, com onze cores.

Quando se sentir preparada, interage com um terceiro material, com mais cores ainda, organizadas de acordo com uma gradação. É assim, passo a passo, que o conhecimento vai se aprofundando.

Nesse processo os materiais disponíveis são de suma importância e muitos deles foram desenvolvidos pela própria Maria Montessori. O mais famoso é o cubo dourado, que materializa o sistema decimal. A ideia é que a criança possa manipular, sentir as diferenças entre unidade, dezena e centena – em termos de tamanho, de peso, de visão, adquirindo uma noção matemática por meio de uma experiência concreta.

 

Outro ingrediente fundamental para a autoeducação é construir um ambiente que propicie a aprendizagem e a vivência. Por isso, na sala de aula, tudo fica ao alcance dos pequenos – mas de forma organizada, é claro. Existe a estante da linguagem, a estante da matemática e os materiais sensoriais.

E em cada espaço desses, tudo fica arrumado de acordo com o grau de dificuldade. Quanto mais ao alto – no máximo na altura da criança – e à esquerda, mais fácil é o material, e quanto mais a direita e mais baixo, mais difícil. Essa sequência de dificuldade acompanha a lógica da própria escrita (que vai da esquerda para a direita), fazendo com que a criança entenda o espaço de uma forma bastante intuitiva.

O que está mais alto, na altura dos olhos da crianças, é o que ela enxerga primeiro. À medida em que progride, ela precisa se abaixar para acessar lições mais complexas.

 

Também por causa da autoeducação, as crianças são divididas em grupos, nos quais convivem com colegas de idades diferentes. Geralmente, as crianças ficam juntas de 1 a 3 anos, de 3 a 6, de 6 a 9 e de 9 a 12 anos e assim por diante.

Isso porque o desenvolvimento não acontece de forma homogênea entre todas as crianças e as necessidades de cada uma variam de acordo com esse processo. Assim, elas podem conviver com outras crianças, com até 3 anos de diferença, que podem estar sintonizadas com as mesmas necessidades dela.

Outro ponto importante é que as escolas montessorianas adotam um currículo multidisciplinar, o que quer dizer que por meio de uma só experiência é possível trabalhar diferentes disciplinas. Ao aprender ritmo, aprende-se música e matemática junto, por exemplo.

 

E qual é o papel do professor?

Como é a própria criança que escolhe em que estação quer estar, o professor é, antes de tudo, um observador, treinado para perceber como a criança interage com o material.

“Em espanhol, no lugar de ‘professor’, as pessoas falam em ‘guia Montessori’, eu gosto muito desse termo”, comenta a diretora pedagógica do colégio Prima (SP), Edimara de Lima . Quando a criança não sai do mesmo material, cabe ao professor observar, para investigar o motivo pelo qual isso acontece: ela tem medo do insucesso, do novo, ela não se arrisca?

É esse tipo de percepção sensível que o educador precisa ter. Quando um dos alunos chega e fica parado e não escolhe nada, também cabe ao professor convidá-lo e ajudá-lo a escolher uma atividade.

“Manter o ambiente organizado, por exemplo, também é função das crianças, mas é, principalmente, uma função do professor. Se a criança sempre encontra o material em um mesmo lugar, ela tem tendência a devolvê-lo lá”, completa Edimara.

 

Será que funciona para o meu filho?

Antes de mais nada, o tipo de escola que a criança vai frequentar deve ser uma escolha da família. Edimara diz que quando perguntam a ela se o método Montessori é bom para qualquer criança, ela responde que sim, mas faz uma ressalva: “A escola tem que ser coerente com os valores e objetivos da família.

Uma criança de uma família mais rígida, pouco flexível, não vai se dar tão bem em uma escola montessoriana”, aconselha. É preciso olhar a escola como algo que vai muito além do projeto cognitivo. É preciso se perguntar que tipo de homens essa escola está formando, qual é a filosofia por trás do ensino.

Para o Montessori, não é importante o primeiro lugar na Fuvest, uma pontuação enorme no Enem… Estamos preocupados em formar gente que saiba escolher, que assuma suas escolhas, que tenha o bem comum sempre como o norte da sua vida.”, afirma Edimara.

Para ela, o que vai contar no futuro para quem passou por uma escola montessoriana é justamente a liberdade de fazer suas próprias escolhas. “A diferença do Montessori não está tanto no nível cognitivo, mas acho que são jovens que sabem sustentar e justificar suas escolhas. Sabem que uma escolha demanda uma responsabilidade e isso vai de uma série de outras posturas”, resume.

Por Naíma Saleh

 

 

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Robótica educacional e os ganhos para o aprendizado

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O que é a robótica educacional e quais são os ganhos para o aprendizado | Além de facilitar a compreensão de conteúdos curriculares, a robótica possibilita o desenvolvimento de diferentes habilidades, como o trabalho colaborativo, o raciocínio lógico e a criatividade

No início dos anos 1960, a ideia de ter um computador pessoal a um preço acessível não passava de ficção científica. Não é de espantar, portanto, que as pessoas tenham rido quando, naquela época, o matemático americano Seymour Papert sugeriu que os computadores fossem utilizados como ferramenta para potencializar a aprendizagem e a criatividade das crianças.

Influenciado pelas ideias de Jean Piaget, com quem trabalhou na Universidade de Genebra, Papert desenvolveu nos anos seguintes, como professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), o construcionismo.

Assim como o construtivismo de Piaget, a teoria vê o aluno como construtor de seu conhecimento por meio de descobertas, mas no caso do construcionismo o processo de aprendizagem ocorre por meio da realização de uma ação concreta, que resulta em um produto palpável.

Foi assim que, na década de 1980, Papert criou a tartaruga de solo, um robô programado pela linguagem Logo – também criada por ele de forma acessível a crianças –, que por meio do uso do computador pelos alunos era capaz de desenhar diferentes figuras geométricas.

No Liceu Franco-Brasileiro, no Rio de Janeiro, os alunos têm a robótica como curso extracurricular a partir do 6º ano do ensino fundamental e como disciplina curricular no 8º e 9º anos. Um dos objetivos da matéria é introduzir conceitos de física já no ensino fundamental e facilitar a compreensão de conteúdos que serão abordados no ensino médio.

“Os alunos veem a teoria em sala de aula e depois vão ao laboratório construir um protótipo que a explicará na prática. Ao construir um carro com a missão de fazê-lo andar em diferentes velocidades, os estudantes terão de aplicar a fórmula de velocidade média”, exemplifica Rosângela Leri, professora de robótica do Liceu Franco-Brasileiro.

Apesar de a robótica ser trabalhada principalmente com as disciplinas de física e matemática, a docente afirma que ela é uma ciência multidisciplinar com potencial para desenvolver uma série de habilidades. “Eles aprendem a organizar o raciocínio lógico, lidam com questões do trabalho em grupo e estão sempre voltados a resolver um problema atual. São pequenos inventores”, analisa.

No Dia Mundial da Limpeza de Praias e Rios (20 de setembro), por exemplo, os alunos do Liceu participaram de uma gincana ao lado de outras escolas cariocas, cuja meta era recolher a maior quantidade de lixo deixado por banhistas.

A solução encontrada pelos alunos mostrou como a robótica pode servir aos mais diferentes propósitos, inclusive à preservação do meio ambiente. Foram criados quatro robôs com peças de Lego, todos automatizados.

“Levamos para o evento uma esteira seletora para a separação do lixo, uma compactadora de copinhos, um carro coletor de lixo com mecanismo de varredura, separação e sucção de lixo para depósito em caçamba e uma garra para coleta de sacos plásticos e latas”, conta a docente.

Com a compreensão da versatilidade dessa ciência, Flávio Rodrigues Campos, doutor em educação e pesquisador do uso da tecnologia e da robótica na educação, confirma que os educadores já não a utilizam mais apenas com um único e exclusivo fim.

“No início, as escolas criavam laboratórios para o ensino de determinada matéria, mas nos últimos anos começaram a perceber que a robótica é muito mais do que isso e criaram uma disciplina curricular para ela.

O que se discute é: por que devemos ficar focados apenas no ensino da área de ciências se a robótica é uma área interdisciplinar? Por que não ensinamos tecnologia dentro do currículo, explicando, por exemplo, como funciona um sensor, de que forma ele se comunica com a placa?

Focar apenas um saber reduz o alcance da aprendizagem e a possibilidade de investigação do aluno, uma vez que com a robótica eu posso trabalhar matemática, engenharia, mecânica, artes, questões sociais, entre outros temas”, ressalta.

 

Além do currículo

Sentados em roda, quatro adolescentes se debruçam sobre a bancada de um laboratório e, em meio a fios, conectores, leds e sensores, pesquisam e debatem entre si como dar o passo seguinte no projeto em que estão trabalhando.

A cena acontece na escola Stance Dual, em São Paulo, onde alunos do 9º ano do ensino fundamental desenvolvem um par de óculos com sensor de distância, a ser doado para uma criança com deficiência visual. A ideia surgiu após os alunos participarem de um projeto social promovido pela escola em parceria com uma instituição de assistência a deficientes visuais.

“Quisemos fazer algo diferente e que pudesse ajudar alguém. No começo, pensamos que seria impossível, mas fomos pesquisando e descobrimos que era viável. Montamos um grupo com pessoas que gostam de diferentes partes do trabalho, um que prefere montar, outro resolver problemas, outro pesquisar”, conta Thiago Gava, um dos integrantes do grupo.

Na Stance Dual, o ensino de programação e dos princípios da robótica já é trabalhado no ensino fundamental II há alguns anos, mas em 2015, com a reformulação do currículo de Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), as duas áreas foram unidas em projetos complementares e que, juntos, atuam como ferramenta para a resolução de problemas.

Os projetos de robótica não estão atrelados a nenhuma disciplina específica, mas se relacionam com o currículo de maneira informal. “A integração das áreas acontece naturalmente, uma vez que os alunos têm liberdade para traçar a resolução do problema proposto. O aluno mesmo começa a perceber a transdisciplinaridade”, aponta Juliana Caetano, professora de desenvolvimento de jogos.

Em uma viagem de estudo do meio, por exemplo, os alunos visitaram uma comunidade quilombola que luta contra a instalação de uma usina hidrelétrica nas redondezas.

Além de estudarem a produção de energia e criarem um protótipo de uma usina hidrelétrica, os estudantes quiseram discutir seu impacto no meio ambiente e para isso pesquisaram características geográficas da região, a história da comunidade quilombola e apresentaram um vídeo sobre o tema. “Não dá para encarar um problema sem esse olhar mais amplo”, acrescenta Juliana.

Na opinião de Rui Correa, professor de robótica, os alunos encontram na escola um espaço para resolver problemas e conflitos, mas falta o momento de colocar a mão na massa. “Essa é uma geração que consome muito, mas que não sabe modificar nada porque nunca lhe ensinaram como as coisas funcionam.

A partir do momento em que começo a questioná-los sobre como as tecnologias funcionam, eles se interessam e passam de consumidores a produtores”, defende. Correa destaca ainda que as necessidades básicas que o mercado de trabalho exige dessa nova geração são outras e que há vagas na área de tecnologia que não são preenchidas por falta de pessoas qualificadas.

 

Autonomia e investigação

Outro ponto que professor acredita ser fundamental em suas aulas é a autonomia dada aos alunos. “Eles se organizam em grupo para exercitar o trabalho colaborativo e nós os incentivamos a, quando surgir uma dúvida ou problema, conversar antes com os colegas, buscar tutoriais e informações na internet, construir juntos.

O professor entra como mediador entre os alunos e a ferramenta. Até porque muitas vezes eu também não sei e aprendo com eles. O formato tradicional de aula não propicia isso”, ressalta.

Para Renata Violante, gerente de formação e monitoramento da Zoom Education for Life, distribuidora exclusiva da Lego Education no Brasil, a robótica coloca o aluno no centro do aprendizado.

As atividades propostas no programa Zoom Educação Tecnológica buscam sempre considerar os conhecimentos prévios dos alunos, propor situações-problema, estabelecer relação entre os conteúdos trabalhados e a vida cotidiana e estimular reflexão. Já atendeu mais de 2 milhões de alunos e está presente em mais de 5 mil escolas.

“A metodologia que concretiza e articula todo esse processo tem como foco o aprender fazendo, ou melhor, o aprender investigando a partir da manipulação de objetos concretos, que é estruturada em quatro momentos”, explica.

Esses momentos são: o conectar, quando os alunos relacionam o tema da aula com exemplos reais do cotidiano de modo a atribuir sentido ao que será construído; o construir, que diz respeito à etapa da prototipagem; o analisar, quando os alunos analisam o que foi feito, e eles observam, comparam, argumentam e aprofundam seus conhecimentos a fim de se tornarem capazes de explicar o funcionamento do modelo e evidenciar a aprendizagem dos conteúdos; e o continuar, etapa em que testam suas hipóteses, apresentando opiniões e ideias de soluções para o desafio proposto.

“Mais do que aprender nomes e definições, os estudantes de hoje necessitam desenvolver competências e aprender a fazer; precisam adquirir habilidades que lhes possibilitem trabalhar em equipe, planejar e executar projetos de trabalho, além de saber utilizar tecnologias de informação para realizar registros e interpretar dados”, defende Renata.

Na visão do educador e pesquisador Flávio Rodrigues Campos, o papel do professor dentro de uma metodologia como essa, de fato, não é o mesmo, uma vez que o docente não deve ser apenas alguém que vai instruir.

“O papel de facilitador e mediador é imperativo e isso não faz do educador alguém menor, pois é ele quem vai poder regular a aprendizagem. O professor vai mediar conflitos e dar o caminho do currículo que está sendo desenvolvido, mas ele não pode ir para essa aula com a mente de quem detém o conhecimento, senão só vai reforçar que o aluno não é ativo no processo de aprendizagem”, alerta.

 

Aprendizagem significativa

Para que o ensino da robótica seja de fato um diferencial na aprendizagem do aluno e não apenas um discurso vazio sobre o uso da tecnologia no ambiente escolar, Flávio ressalta que a escola tem de ter objetivos muito claros do que quer com essa metodologia.

“O gestor deve em primeiro lugar entender o que é a robótica e pesquisar que tipo de recursos pode adquirir. Muitas vezes a tecnologia é vista como um otimizador do tempo, mas é necessário pensar em uma carga horária que seja suficiente para o aluno construir e refletir.

A tecnologia não pode ser uma ferramenta para fazer o aluno aprender mais rápido; ela serve para dar autonomia, emancipação e estimular a criatividade”, aponta.

Em relação ao material necessário, o educador explica que existem no mercado diversos kits prontos de robótica, mas também é possível trabalhar com outros materiais, como a sucata, e montar kits próprios para privilegiar a construção de projetos em que os alunos comecem a produção do zero. “Mas, para isso, o professor deve ter conhecimento técnico e saber com quais materiais deve trabalhar”, lembra.

Apesar da importância da formação técnica, Flávio ressalta que a formação pedagógica é essencial para o professor refletir sobre o verdadeiro papel do ambiente escolar. “Não adianta adotar a tecnologia sem uma mudança de postura pedagógica”, acredita.

O educador argumenta também que não adianta ter apenas um professor que entenda sobre robótica e tecnologia. “Assim ele vai trabalhar isolado e é importante que os docentes tenham contato para explorar a interdisciplinaridade e trocar experiências”, defende.

Renata Violante, da Zoom, concorda que o processo formativo do professor deve ser constante, pois é ele que possibilita a apropriação das concepções e propostas didáticas desenvolvidas, o crescimento profissional, bem como a contextualização da disciplina no projeto educativo de cada escola.

“A formação de professores envolve muitos aspectos, portanto é necessário considerar o educador no contexto de sua atuação, com possibilidades e dificuldades que lhe são próprias. Diante dessa realidade, é necessário também respeitar suas aprendizagens e sua autonomia.”

Para o professor Rui Correa, da Stance Dual, essa proposta deve estar inserida dentro da cultura escolar. “Essa nova estrutura é orgânica e a cada ano tentamos nos integrar mais”, diz. Diante disso, Flávio lembra que muitas escolas optam por oferecer a robótica apenas como curso extracurricular, mas, em sua opinião essa decisão acaba segregando os alunos e tirando daqueles que não têm um interesse prévio pela área a oportunidade de aprender diferentes saberes.

“A robótica foi feita para todos. Se for oferecida no currículo e todos entrarem em contato com a área, aqueles que tiverem mais afinidade poderão se aprofundar em um curso extracurricular”, sugere. Por isso, o educador acredita que o segredo é olhar mais para o aluno. “Se não fizer isso, a robótica pode apenas reforçar o modelo de aula tradicional”, opina.

Para o matemático, também um dos fundadores do Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, a máquina é capaz de mudar a forma de aprender das crianças, considerando que ela se dá por meio da criação, reflexão e depuração das ideias.

Essa visão tem influenciado diversas escolas no Brasil e incentivado a adoção de metodologias e disciplinas que trabalham esse processo de aprendizado, como é o caso da robótica, ora tratada como meio de ensino, ora como um objeto de aprendizagem.

Fonte: Revista Educação

 

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